Projeto de incentivo contra os impactos da seca e da desertificação

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Curtume a seco é alternativa

Este é um entre outros projetos de incentivo à agricultura familiar contra os impactos da seca e da desertificação

 

Atividade reanima a economia local, dando esperança a pequenos e médios produtores ( Fotos: Marcelino Júnior )

Irauçuba. A comunidade da Fazenda Aroeiras, neste município, com algo em torno de dez famílias é, segundo estudos de solo, uma das mais afetadas no Município pelo fenômeno da desertificação, que é a perda da capacidade total de produção da terra nas regiões áridas, semiáridas e secas do Planeta.

A desertificação se dá em ambientes considerados frágeis, mas é a ação do ser humano, na maioria dos casos registrados, que tem quebrado o equilíbrio da natureza e facilitado o início desse processo, que transformou Irauçuba num dos locais mais afetados do Estado.

Essa degradação ambiental do Município, de 23 mil habitantes, o tem tornado um dos mais pobres da região norte. Juntamente com as comunidades de Mandacaru e Cacimba dos Salgados, outras duas localidades mais atingidas pela desertificação no Município, a Associação Comunitária da Fazenda Aroeiras formou um grupo de 40 pessoas para buscar alternativas viáveis de sustento para as famílias.

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O surgimento de nova fonte de geração de renda anima a zona rural. Irauçuba é uma das localidades mais atingidas no Ceará pela desertificação

A ideia da criação de um curtume há muito era discutida durante as reuniões, mas o alto consumo de água, durante as diversas etapas do processo produtivo, que incluem banhos de tratamento e lavagem de peles; o impacto no consumo dos mananciais; o possível gasto com energia; além do uso de reagentes químicos e os poluentes a serem tratados no fim do processo barravam qualquer tentativa de instalação desse tipo de empreendimento, por menor que fosse, ainda mais num local que sofre com a falta de água.

Tecnologia

A saída veio com a criação de um curso de Curtume a Seco, um projeto resultado da parceira do Município com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), organismo internacional especializado em cooperação técnica para a agricultura e desenvolvimento rural, com o intuito de promover uma agricultura mais sustentável, competitiva e de inclusão, além de atuar em áreas relacionadas às mudanças climáticas e recursos naturais. Outros parceiros foram a Fundação Araripe, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), sem fins lucrativos, sediada em Crato, que trabalha a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento humano; e o Ministério do Meio Ambiente.

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O uso de madeirite, para estender o couro, escovas e o calor do sol são elementos utilizados para o curtume. Com ações simples, a expectativa das comunidades rurais é que a atividade venha a dar novo impulso aos negócios

Os recursos foram levantados junto à Cúpula do Mercosul, por meio do projeto Econormas, que, entre outras ações, busca incentivar a permanência do homem no campo.

Início do zero

O projeto do curtume, somado a outras atividades que buscam a geração de renda, é um dos mais procurados como saída para reforçar a subsistência das famílias nas zonas rurais. O Município não tem tradição dessa atividade, que praticamente está sendo iniciada do zero.

"O não uso da água em nenhum dos processos de transformação artesanal do couro em matéria-prima para diversas mercadorias a serem absorvidas pela economia é a maior vantagem para quem mora no Semiárido e paga o alto preço que tem a desertificação como resultado. Esse trabalho é inovador, pois antes o couro era desprezado, ou vendido in natura a um custo muito baixo. Estamos tentando abrir esse mercado aqui na região", afirmou o Caetano Rodrigues, secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Município de Irauçuba.

Ainda segundo o secretário, "esse este tipo de couro não existe aqui no mercado. Ele é natural, sem adição de produtos químicos, o que o torna diferenciado. Estamos fechando, ainda, uma parceria com o Sebrae para iniciarmos outra etapa dessa atividade, que seria a capacitação para a costura do couro, criação de peças, acessórios, vestimenta. Aí envolveremos as mulheres da comunidade", disse.

Valorização

Antes, o couro retirado durante o abate era desprezado, ou vendido a R$ 1,50, valor bem inferior ao conseguido com o beneficiamento do produto. O material tratado ganha maior valor, podendo ser comercializado na região a cerca de R$ 80, segundo Francisco de Assis Rodrigues, presidente da Associação Comunitária de Aroeiras. "Tudo aqui é novo pra gente, mas agora queremos começar uma outra etapa, que foi vista no curso, que é a comercialização do que nós estamos produzindo. O novo passo é conseguir compradores. Com uma demanda, a gente vai criar esse mercado aqui na nossa comunidade", afirmou Francisco, que possui cerca de 120 cabeças de ovinos e caprinos.

O tratamento da pele no curtume a seco é rápido e econômico, além de representar baixo custo. Após o abate do animal, o couro é retirado inteiro, esticado numa placa de madeirite e tem a parte interna salgada. A seguir, a pele é exposta ao sol por três dias, e após esse processo, entra na fase de amaciamento, com lixas de 60, 80 e 120mm. Para finalizar, é necessário o uso de escovas de aço e pelo. Todo esse processo pede o uso de um galpão, lixas de espessuras variadas, sal comum, escovas de pelo e aço, além de máscaras descartáveis, luvas e a ação do sol.

A instalação do curtume a seco em Irauçuba faz parte de um pacote de ações pensadas para driblar as dificuldades enfrentadas pela polução, no que diz respeito à pouca ou quase nenhuma oferta de água que a região enfrenta, assim como o restante do Estado do Ceará.

Vazio

O Açude Jerimum, pertencente à Bacia do Curu, que antes abastecia Irauçuba, está seco, com apenas 0,01%, de acordo com o último levantamento da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) pelo Portal Hidrológico do Ceará.

A adutora de engate rápido, construída em 2010 para levar água da barragem Missi, no município de Miraíma (a 46 quilômetros de Irauçuba), ainda sofre com os constantes vazamentos. Isso resultou, no mês de novembro, na manifestação que bloqueou um trecho da BR-222, por cerca de duas horas, em busca de solução. À época, a reportagem foi veiculada pelo Diário do Nordeste, que acompanhou o ato.

Entre os projetos emergenciais para minimizar os impactos da desertificação sobre as comunidades que sobrevivem da agricultura familiar, e da falta de oferta de água, o Município conta com 14 carros-pipas, que se dividem no atendimento à zona urbana e zona rural.

Também foram construídas mais cisternas de placas, com canteiros de hortaliças; barragens sucessivas de contenção de sedimentos, estrutura construída com pedras soltas colocadas em arco deitado na rede de drenagem da micro-bacia ou riachos afluentes de um rio para melhorar, entre outras medidas, as condições hídricas na local; foram instalados 20 dessalinizadores; novos poços artesianos; quintais produtivos; incentivo à criação de galinha caipira; do cultivo de mel, além de ovinos e caprinos.

"A situação é de extrema precariedade. O governo do Estado não nos apresentou mais nenhuma saída para esta crise hídrica. Tudo o que poderíamos fazer, foi feito. Usando uma frase batida e rebatida: estamos à espera de chuva", disse o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Caetano Rodrigues.

Irauçuba possui sete distritos e tudo que produz atende ao seu mercado interno, que tem no leite e na carne para corte seus principais produtos. O primeiro, chega a gerar acerca de 50 mil litros por mês, divididos em tanques de resfriamento; o segundo se mantém com algo em torno de 20 mil cabeças divididas entre bovinos, ovinos e caprinos.

Para o agricultor João Paz da Silva, pai de cinco filhos e participante do projeto de curtume, "a situação está muito difícil. Não temos renda suficiente fora do que conseguimos com a terra mesmo, ou com as outras atividades para matar a fome. O trabalho com o curtume pode ser mais uma saída para melhorar a sobrevivência da gente num lugar que não tem muito o que oferecer", disse. Agora, estamos mais esperançosos", ressaltou.

Fonte: Diário do Nordeste

13.12.2015 por Marcelino Júnior - Colaborador